Olhar Estrangeiro
Salve, Chicletada!
Há uns quatro anos assisti a um documentário que apresentava o nosso país sob a forma de um personagem e como ele era vendido lá fora. Reassisti recentemente pra relembrar e resenhar por essas poltronas chicletadas. Trata-se de Olhar Estrangeiro.

O filme é idealizado pela cineasta Lúcia Murat que, cansada da maneira como a indústria cultural promove o Brasil no exterior da maneira mais ignorantemente possível, resolveu ir atrás daqueles que de alguma forma contribuíram para a propagação da imagem estereotipada do nosso país e colocá-los contra a parede. Ela não estava interessada em mostrar produções estrangeiras em que brasileiros estavam por trás das câmeras, e sim de filmes estrangeiros que tratam ou foram filmados aqui. Quem criou esse personagem? Por que até hoje, com o mundo todo tendo acesso aos mais diversos meios de comunicação, seus clichês mais ridículos continuam sendo mais representativos e reconhecidos do que sua própria essência? Lúcia entrevistou diretores, atores, produtores e roteiristas a fim de saber o que os levou a transmitir um retrato caricaturado do país. O filme vai alternando entre o depoimento dos envolvidos, entrevista de pessoas comuns, e trechos de filmes em que o país é “ridicularizado”. Sim, em alguns casos é ridicularizado mesmo. Fosse somente nos apresentar como o recanto do samba, da bunda e da caipirinha, vá lá, mas deturpar a realidade, criando um mundo bizarro, é ruim de engolir. Macacos na praia, cerimônias exóticas em cada esquina e cobras gigantescas engolindo seres humanos são apenas algumas das atrocidades as quais o Brasil é submetido. Lúcia consegue, por vezes, deixar os entrevistados constrangidos ao confrontar o que eles transmitiram nas telas de cinema com a realidade. Engana-se quem acha que isso é por falta de informação sobre nossa cultura, somente. Alguns dos envolvidos, mesmo estando aqui, em contato com nossos valores e constatando não haver aquela exacerbação outrora concebida, insistiram em retratar aquele país do imaginário coletivo. Em um ou outro caso até contra sua vontade, é fato. Sim, pois não são os executores da obra os únicos culpados. Outros vilões da estória são as distribuidoras, que é quem banca a produção. Para elas, retratar um Brasil diferente daquele que o mundo já conhece não é rentável, e ai daquele que ousar contrariá-las! Nós, filhos da terra, também temos nossa parcela de responsabilidade, pois, segundo a diretora “…(é o olhar) que nós, brasileiros, lá fora, muitas vezes ajudamos a construir, pois é mais fácil se submeter a um desejo do que enfrentá-lo apresentando realidades mais complexas”.
Em Olhar Estrangeiro, percebemos a dimensão que uma ideia mal-retratada pode adquirir no conceito alheio. Por isso, não condeno os que, por falta de conhecimento, criaram e ajudaram a popularizar o Brasil dos Gringos (livro de Tunico Amancio, utilizado por Lúcia em seu estudo). Afinal, quem aqui nunca concebeu uma ideia sobre um povo, uma cultura, aqui de dentro do país mesmo, baseado no disse-me-disse alheio?
Informações:
Título Original: Olhar Estrangeiro
País de Origem: Brasil
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 70 minutos
Ano de Lançamento: 2006
Direção: Lúcia Murat
Grude: 







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janeiro 20th, 2011 em 04:48
Eu já tenho uma opinião meio controversa do assunto. Claro, não há como negar que o país é retratado de formas controversas e até ridículas, mas oras, são filmes. Se fossem pra mostrar a realidade, seriam documentários. Já viu episódio dos Simpsons em que macacos andam pela rua aqui? E aquele Turistas que a galera xingou muito no tuíter só porque o negredo morreu em lugares belíssimos aqui? E James Bond que só vem pra cá no carnaval ou na Amazônia(com cascatas, o que não existe!). Acho tudo isso muito superestimado. Se neguinho for pra Amazônia, vai dizer que só tem floresta e índio aqui(Cannibal Holocaust?). Um país sério não deve se importar em como um filme retrata um pedaço da realidade(ou da mentira).
Discordo já dessa parte também: “…(é o olhar) que nós, brasileiros, lá fora, muitas vezes ajudamos a construir, pois é mais fácil se submeter a um desejo do que enfrentá-lo apresentando realidades mais complexas”
Não acredito que brasileiros que vivam fora tenham o poder de mudar uma visão idealizada de qualquer coisa que seja. Claro que dá pra mostrar o que é e o que não é, mas sinceramente, isso vai mudar? Acho que tem muito mais brasileiro lá fora mostrando que o Brasil não é só samba e carnaval, do que o contrário. E porra, se nossas mulheres são bonitas, porque desconstruir a imagem?
No fim das contas, o que faz a imagem do país não é um filme ou uma porção deles. A imagem de um país é feita das ações e atitudes do seu povo e representantes. Isso sim, torna o nosso país ridículo.
janeiro 20th, 2011 em 07:20
Boa, Brunão. Eu discordo, concordando em partes :)
Começando pelo fim, e sem entrar no mérito político do papo, concordo inteiramente com seu último parágrafo.
Se o filme for escancaradamente escrachado, acho aceitável qualquer maneira de contá-lo. Já se a proposta é fazer um filme "sério", não. O problema é justamente esse, que os estrangeiros não consideram o Brasil lugar pra se rodar um filme a ser levado a sério. Só pro escancaradamente escrachado. Pro oba-oba, pro ziriguidum. Se é pra usar o Brasil só como pano de fundo, sem apresentar qualquer valor positivo, que rodem um filme em um estúdio hollywoodiano, oras!? Sim, sei do Turistas, dos Simpsons, 007, etc., sei que são filmes, não são documentários, e, em nome da arte, pode ser feito o que der na telha de quem os faz. Ok. Mas porque existe não quer dizer que deva ser digerido.
Em relação a "não acredito que brasileiros que vivam fora tenham o poder de mudar uma visão idealizada de qualquer coisa que seja", discordo. Acredito que temos condições de influenciar o imaginário alheio, independentemente da proporção alcançada. Por exemplo, se eu chego prum cara lá fora e digo que "minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá", esse pode, muito bem, ser o parâmetro que ele vai usar quando o tema "terra do cabeça" vier à baila. Nem todo mundo tem boa capacidade de discernimento, e até que ele tenha outra fonte de informação, prevalece a minha.
Esse negócio de alguém falar sobre algo, sem ter propriedade pra falar, sem ser do metier do cara, sou contra. Não sou baiano, mas, se fosse, não gostaria de ver minha terra sendo retratada como estado de preguiçoso e de festa 24h. Não sou cearense, mas, se fosse, não gostaria de ver minha terra retratada como terra de cabeça-chata e de humorista. Sou alagoano, e não gosto de ter minha terra lembrada apenas por ser a terra do Collor (se bem que nem de lá ele é, mas como vale o lugar onde ele foi criado e fez carreira política, fazer o que?). É mais fácil perpetuar a imagem negativa do que a positiva. Que adianta eu dizer que de lá saíram, Aurélio Buarque de Hollanda, Jorge de Lima, Graciliano Ramos, Djavan, Zagallo, Marta, Théo Brandão, Pontes de Miranda, Zumbi dos Palmares, Cacá Diegues, Jofre Soares, Hermeto Pascoal? Se um cara produz um filme abordando sua região, e o faz de maneira caricaturada, destacando os clichês, certamente seu objetivo era o de criticar, de mostrar desconforto com o modo como sua terra foi pintada e não porque ele se orgulha daquilo. Certamente não. O problema é, ao meu ver o tal Olhar Estrangeiro (de fora da situação, não necessariamente do país). Por conta disso, continuaremos a ver, por exemplo, nordestino como porteiro de prédio em novela.
A questão é, por que continuar perpetuando rótulos que existem, fato, mas que não agregam qualquer valor positivo (a não ser o financeiro, claro) a uma obra? Se não for com o objetivo de criticar, é zombaria. E com zombaria eu não concordo.
janeiro 20th, 2011 em 07:44
Opa, vamos lá!
Quanto a influenciar o imaginário alheio, não foi exatamente isso que eu quis dizer. Obviamente se eu for pra Holanda e falar com quem nunca veio pra cá, será a minha opinião que prevalecerá sobre o Brasil, oras, eu tenho conhecimento. Nesse ponto, concordo. Agora mudar a opinião que milhões(bilhões?) de pessoas tem com relação ao Brasil, é inocência culpar quem mora lá fora. Você tem voz sim, mas não pra mudar prejuízos, no sentido literal da palavra mesmo.
E com outra coisa concordo: você nunca precisa digerir algo. Mas nem é essa a questão.
Cara, a minha visão sobre isso vai muito além. Rótulos são rótulos e pronto. Você pode mudá-los, mas eles NUNCA serão o retrato daquilo. Você é cearense, digo, alagoano, e sabe que tem MUITO MAIS que Collor por lá. Quem se interessar, vai saber também. Mas o rótulo não é o que você conhece, e por "melhor" que um rótulo pareça, ele nunca é bom.
O rótulo é só a superfície do negócio, e por isso eu não me importo que achem que todo curitibano é frio ou é metido. Quem baseia a sua opinião em rótulos, está fadado ao superficialismo.
Eu entendo o desejo de mudança do rótulo: nordestino como porteiro, baiano folgado, gaúcho viado. Mas acredito que a melhor, senão a única, maneira de "melhorar", é justamente não tentar melhorar. É ignorar.
Acho muito válido a iniciativa do documentário em descobrir e mostrar as opiniões e os porquês lá fora, mas simplesmente pela curiosidade. Tentar fazer esse documentário como "denúncia", ou "olha que horror isso", é dar importância demais ao que é superficial.
E justamente porque acho isso tudo superficial demais pra levar a sério, não me importo que o pano de fundo no Brasil hollywoodiano seja bunda e carnaval. Quanto mais eles vierem pra cá, mais aprenderão, e um hora o rótulo cai, talvez pra outro pior, ou menos pior.
Já assistiu ao surreal Brazil? É o filme mais surreal que já assisti, e apesar do nome, não se passa no Brasil. Mas você vê muita coisa "brasileira" nele, e que não é samba e carnaval. E o final é sensacional.
É como eu acabei de inventar: quem dá importância ao rótulo é só a caixa do supermercado.
janeiro 22nd, 2011 em 18:03
Bom, quero dizer que a intenção do filme não é levantar uma bandeira e convocar todos os brasileiros a lutar pra desconstruir a imagem que o estrangeiro tem de nós. Se foi isso que eu deixei a entender com o meu texto, já faço questão de corrigir. O objetivo do filme, segundo a própria diretora, é "ir além do clichê". Eu entendo com isso, e com o filme, que essa foi a maneira que ela encontrou de, digamos, não aguentar calada, o que eu concordo. Não é mobilizar o povo, não é mudar a opinião de m(b)ilhões de pessoas, não é fazer um documentário do tipo "denúncia", mas é, às vezes, fazer o contrário do que você sugere. É não aguentar provocação calado, sendo totalmente omisso em relação às críticas. Vai mudar o comportamento do mundo o fato de remar contra a maré? Não vai. Mas se mostrar desconfortável com a situação é o mínimo que pode ser feito para obter um pouco de respeito.
Acho que não me fiz entender na resposta pra “…(é o olhar) que nós, brasileiros, lá fora, muitas vezes ajudamos a construir, pois é mais fácil se submeter a um desejo do que enfrentá-lo apresentando realidades mais complexas”. Muitas vezes lá fora quando identificam um brasileiro, o que eles falam pra mostrar que sabem de onde somos? "Brazil! Samba! Bunda! Caipirinha! Pelé!". E o que respondemos? "Samba! Bunda! Rio!", entrando no que ela aponta como "submeter a um desejo do que enfrentá-lo apresentando realidades mais complexas". O que a acontece quando encontramos um americano por aqui? Dizemos "Microsoft! Obama! Michael Jackson!"? Será que com toda a cultura alheia com a qual o estrangeiro se encontra ele reage dessa forma, o chamando por rótulos, ou só com aqueles que foram muito rotulados e omissos ao longo do tempo?
E, complementando a tua máxima, "quem dá importância ao rótulo é só a caixa do supermercado e o consumidor que não quer ser lesado".
janeiro 20th, 2011 em 08:17
bem… eu concordo com ambos nessa discussão… vou escrever relativamente pouco, pois, como vcs sabem, sou péssimo com palavras…
como o Bruno citou o exemplo da Holanda, vou me utilizar desse exemplo… aqui no Brasil mesmo… q tipo de visão temos da Holanda?? basicamente que é um país de garotas de programa e drogados…
De certa forma.. esses rótulos entre os países (creio q sejam em todos os países) existe por ser uma questão política (mas mais na forma de legislação mesmo… pq política, política mesmo, somente o próprio país para conhecer), social e cultural dos países e que não existem formas de serem alteradas… mesmo pq vivemos aqui, estamos acostumados com as leis daqui, cultura daqui e inter-relacionar com as pessoas da mesma forma que nos relacionamos aqui… e o mesmo ocorre nos outros países…
Infelizmente a grande massa da população mundial demonstra aquilo de que ouve falar sem conhecer… vão muito pela "maioria"…
Com relação a lembrar de Alagoas somente por Collor.. acho que isso é uma coisa q ocorre somente aqui no Brasil… em muitos países, acredito q nem sabem quem ou que foi Collor… basta apenas ir para os EUA (já que a maioria das coisas que "demonstram" o Brasil são de lá…) e perguntar sobre Collor… se for brasileiro, c certeza saberá responder, entretanto, se for um americano, muito provavelmente n conhecerá.. e, se conhecer, n vai saber o q pode ter rolado ou n…
janeiro 20th, 2011 em 08:40
[...] de uma argumentação(que até o momento que redijo isso, ainda está rolando a tal argumentação) nesse post do Chiclete na [...]